Como a psicologia vem usufruindo os avanços tecnológicos em sua área de atuação e lida hoje, dentro e fora da clínica com a Interação Humano-Computador
"Psicólogos trabalham com pessoas". Essa afirmação dificilmente será contestada. Talvez por isso possa soar estranho quando alguém fala de Psicologia aliada à Informática ou psicólogos trabalhando com tecnologias digitais. Sendo assim, um primeiro esclarecimento se faz oportuno: psicólogos não trabalham com computadores, pois esses são objeto de estudo de outros profissionais. Psicólogos trabalham com a interação humano-computador.
Um segundo esclarecimento: computadores podem ser vistos como tecnologias, aparelhos, máquinas; mas também como mídias, ou seja, dispositivos que dão suporte à comunicação humana. Ao psicólogo, portanto, não interessa o computador enquanto máquina, mas enquanto mídia. O objeto de trabalho do psicólogo na interação humano-computador, portanto, é:
1) como pessoas interagem com computadores e;
2) a forma como pessoas interagem com pessoas, mediadas por computadores.
HISTÓRIA DA PSICOLOGIA & INFORMÁTICA
A condição de possibilidade para Adorno, Horkheimer, dentre outros, de desenvolverem a chamada "Teoria Crítica" foi a profusão da mass media nos anos 1950. Décadas depois, uma forma de comunicação qualitativamente diferente adveio: a Internet. Ela se distingue das mídias de massa por ser interativa e permitir formas inéditas de autoria e publicação de conteúdos pelos próprios usuários. A geração de teóricos que começou a falar dessas novas mídias teve Marshall McLuhan, sociólogo da tecnologia, como pioneiro. McLuhan falou das mídias como extensões do Homem, em 1964. Em 1980, uma psicóloga do MIT (Massachusetts Instituct of Technology - Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Sherry Turkle, estréia a discussão psicológica sobre a Informática ao teorizar sobre os muitos selfs permitidos pela comunicação digital em rede. Pouco depois, B. F. Skinner declara, em 1989, que o computador era a máquina de ensino ideal, ao mesmo tempo em que critica o "modelo computacional da mente" do Representacionismo Cognitivista, pelo qual o cérebro humano funciona de forma análoga a um computador interno que processa dados do mundo externo. (Para Skinner, o comportamento humano não podia ser reduzido a um sistema de informação). Poucos anos depois, observamos o boom na Internet comercial e também o crescente interesse acadêmico pelo assunto. A segunda metade da década de 1990 marca o período onde se começa a pesquisar cada vez mais sobre como computadores mudariam as regras do jogo social da comunicação, da educação, da cultura etc. Primeiramente, surgem estudos ergonômicos sobre problemas de uso das máquinas computacionais. Logo em seguida, questões psicossociais vêm à tona, como os fenômenos de net addiction e relacionamentos virtuais. Em 2007, completamos cerca de uma década da popularização da Internet no Brasil e passamos por um momento crucial na pesquisa psicológica sobre essa mídia. Diversas questões ainda demandam respostas: "A terapia e velocidade de resposta. Aquilo que muitos pais pensam pode ser verdade: crianças que cresceram em um mundo com Internet podem ser intelectualmente diferentes, de alguma forma, das gerações anteriores, o que poderia demandar novas formas de ensino escolar.
RESOLUÇÕES DO CFP SOBRE A INTERNET
Diante das diversas questões acadêmicas e profissionais suscitadas pelas novas mídias, o Conselho Federal de Psicologia brasileiro desenvolveu as seguintes resoluções para disciplinar a exploração da área: 1) a 2000_3 que regulamenta o atendimento psicoterapêutico à distância, mais tarde reformulada e ampliada pela 2005_12; e 2) a 2000_6 que cria a Comissão Nacional de Credenciamento e Fiscalização de Serviços de Psicologia pela Internet, órgão do CFP responsável por um selo de qualidade conferido a sites amigos da Psicologia. Nos dias de hoje, a terapia à distância ainda se encontra em fase de testes, só podendo ser realizada em caráter experimental. Contudo, diversos outros serviços, como a Orientação Profissional, por exemplo, podem ser exercidos on-line. Em paralelo, cresce a prática da Telemedicina para diagnóstico e tratamento, inclusive na rede pública de saúde brasileira. Os serviços que apresentam sinais de maior sucesso mercadológico na atualidade são os relacionados a ensino à distância, notoriamente a educação de adultos. Com o advento de testes informatizados, novas áreas tendem a crescer: o recrutamento e seleção à distância e a avaliação neuropsicológica.
O fato é que a depuração ética dessas novas práticas não parece acompanhar a velocidade dos avanços técnicos. Novas formas de fazer avaliação psicológica, como testes digitais à distância, ainda geram muitas controvérsias.
EFEITOS, APLICAÇÕES E DESENVOLVIMENTO
Hoje, observamos uma nova área de atuação para psicólogos em gestação. Chamá-la-ei simplesmente de "Interação Humano-Computador" (IHC), que na verdade é um nicho multidisciplinar de atuação. Sociólogos, psicólogos, engenheiros de software, designers e tantos outros profissionais fazem parte dessa iniciativa. Mas como o psicólogo pode atuar com IHC? O que ele tem a oferecer? Quais competências são o seu diferencial em meio a tal multidisciplinaridade?Para responder a isso, é preciso entender que a IHC pode ser segmentada em três partes:
1) estudo dos efeitos das mídias interativas em seus usuários (entram aqui diversos trabalhos sobre dependência da internet, relacionamentos on-line, comunidades virtuais etc);
2) aplicações das mídias interativas a serviços em Psicologia (terapia à distância, orientação profissional, testes digitalizados, seleções online, etc.);
3) o desenvolvimento de sistemas de informação e dispositivos (com destaque para a gestão de usabilidade, o design de ambientes de ensino, game design etc.). Dizendo de outra forma: o psicólogo que atua em IHC pode ter foco no aspecto Human (efeitos dos usos dos sistemas nos usuários), ou no Interaction (na interação usuário-sistema) ou no Computer (desenvolvimento de novos sistemas).
O grande filão de mercado da Psicologia, a Clínica, transita entre o foco Human e o Interaction. A área de Recursos Humanos se atém especialmente ao Interaction, interessada, por exemplo, no e-learning (que para muitos vai substituir o tradicional treinamento empresarial). Por fim, são raros os psicólogos que se dedicam a foco Computer, atuando, por exemplo, com a criação de ferramentas e ambientes virtuais. Mas está aqui certamente um filão do mercado, de excelente potencial, a ser explorado por esta nova geração de cyberpsicólogos: a procura por psicólogos para atuar em equipes multidisciplinares com designers, cientistas da computação e afins tem crescido em universidades e empresas pelo mundo afora. A seguir, falo sobre as três ênfases possíveis que os psicólogos podem dar ao fenômeno IHC. A intenção é que esses profissionais (ou os ainda aspirantes a psicólogos) possam trilhar novos caminhos, e uma nova carreira ou área de atuação possa surgir.
Para ler a continuação desse texto, acesse: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/24/artigo70928-1.asp

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